samedi 13 septembre 2014

SUNGUILA*






-   Tia Velha, conta aí uma das tuas estórias !
-   Mjjjjjjjj! Já lhi disse que não sou tua tia! E se sou velha, tu é mais ainda! Ou já esqueceu que quando eu vim morar aqui, ainda minina e moça, tu já tava a criar caruncho aí no teu poleiro?! E que estória tu quer pra eu te contar? Já te contei todas as minha estória!
-   Eh!eh! Bons tempos aqueles em que eras menina e moça! Ainda me lembro do teu ar de gazela, cabeleira frondosa e aqueles brincos doirados que trazias em cachos. Eras mesmo um pedaço!
-   É, você quer me adoçar minha boca pra ver se eu conto! Ma não conto, não!
-   Deixa-te de fitas! Conta lá aquela do dia em que a polícia te foi visitar!
-   Hummmm... só conto si você cantar pra mim!
-   Cantar?! Sabes bem que perdi a minha voz depois de tantos anos em silêncio. Conta essa da polícia. Não te lembras?
-   Como não mi lembro! Nunca tive tanto medo na minha vida... Só por causa dos safado daquêlis minino!
-    Safados? Mas são os teus queridos meninos que sempre defendeste e com cujas patifarias te deleitavas! Os teus maravilhosos alunos do liceu!
-   Com leite ou sem leite, eles foram mesmo uns safado dessa veiz. Tu lembra bem como eu dizia sempri pra eles parar com aquelas conversa mêsmo aqui dibaixo da minha janela.
-   Mas afinal o que diziam eles?
-   Hum! Conversa de genti grande, qui minino de liceu não deve falar.
-   Mas que conversa?
-   Hum! Política...Luta... Indipendência... Genti do mato, sei lá! Muita coisa não entendia mêmo. E falava também dum barbudo qui si chamava Maxismo. Isso é nomi de genti?!
-   Não é maxismo, mas sim marxismo e não é nome de ninguém. É uma teoria criada por um homem, de facto barbudo, que se chamava Karl Marx.
-   E como é que tu quer que eu sei? Não andei na escola como você que virou mestre! Pequinininha, comecei minha vida na quitanda a vender o fruto do meu suor!
-   Mas conta lá! O que disseram os polícias?
-   Ué! Ninguém falou! Chigou só e começou a dar porrada nos minino. Tem dois qui consiguiu fugir nas traseira do meu quintal e depois saltou nos campo de jogo do liceu. Os qui ficou levou bué de porrada...
-   Muita tareia.
-   Quê?
-   Os que ficaram levaram muita tareia.
-   Ué? Não é a mêma coisa?
-   Não é, não!
-   Ué?! Então porquê você me corrigiu si não é a mêma coisa?
-   É o mesmo acto, mas dito de uma maneira mais... correcta. Bem, mas isso não importa, que eu já desisti de te ensinar a falar como deve ser... Nem com todos esses anos a escutar conversas de estudantes tu conseguiste aprender!
-   Ché! Pára de mi insultar! Você queres dizer qui sou burra?
-   Nada disso, minha amiga! Estou só a brincar contigo!
-   Hum! Mjjjjjj....
-   Acaba lá a tua estória. O que fizeram os polícias a esses meninos que levaram tare... bué de porrada?
-   Viu que você também fala como eu?!
-   He! He!
-   Bem, os policia carregou os minino e levou tudo na esquadra e no dia seguinte veio um policia aqui na minha casa com o doutor do liceu...
-   Com o Reitor do liceu?
-   Esse mêmo, esse que manda aí no liceu. Sabe quê que o polícia falou pra êli? Si os minino não pára de vir juntar aqui no pé da minha janela, êlis deita meu muro abaixo! Você viu se eu ficava mêmo sem muro? Agora é qui os safadinho entrava mêmo no meu quintal pra roubar meu ganha pão!
-   Mas esse teu muro nunca os impediu de entrar e ir roubar o teu ganha pão!
-   É, nisso tu tem razão! E ainda se era pra comer! Mas muita veiz era pra atirar nos camião dos monangambé! Os coitado já ia no castigo na carroça do camião e inda levava com coisa nas cabeça! Era mesmo uns safadinho, mas eu gostava muito dêlis. Cabeça rijo da idade, mas não era mau, não senhor! Só brincadeira!
-   De muito mau gosto, na maior parte das vezes!
-   Chê! Não jagera.
-   E-xa-ge-ra.
-   Lá vem você outra veiz! Daqui a pouco mi calo de veiz!
-   Mas acaba lá a estória da polícia e do muro. Os meninos voltaram a vir para o teu muro?
-   Durante uns tempo não e dipois veio outros. Esses aí uns tinha cabelo comprido como as minina e vestia camisa com florzinha. Ai ué! Me ria tanto! E as calça, você si lembra daquelas calça qui parecia saco di boca pra baixo? Mas não voltaram mais com aquelas conversa di política. Só fumar uns cigarrinho qui êlis mêmo enrolava.
-   Isso também não devia ser muito católico!
-   Eh! Juventude! Sabi uma coisa? Tenho muita saudade daquêli tempo. Mi lembro qui quando caiavam o muro do liceu, caiavam o meu também. Agora já ninguém caia...
-   É, velhos tempos minha amiga, mas agora os tempos são outros, os meninos já não têm tempo para brincar! A vida está dificil.
-   Difícil mêmo! Vender fruta já não chega pra viver! Agora é só esperar nossa hora...
-   Hi! Tanta desanimação! Qual nossa hora! A gente está aqui ainda para durar! Deus é pai e a Virgem é mãe! Vais ver que tu ainda hás-de voltar a vender a tua fruta e a ter o teu muro caiado. E eu vou recuperar a minha voz! E ainda vais ter muitas estorias de meninos para contar, pois eles voltarão a sentar-se no teu muro!
-   Ai! Mestre Sino das Torre! Só memo você pra adoçar a boca daqui da Maria Manguêira!

* Sunguila (t. Kinbundo): Passar a noite a conversar, geralmente a contar histórias






samedi 17 mai 2014

VIANA, TAL COMO A SENTI...



Menina do rio
Do monte
E do mar
De beleza serena
Contrastes e cores
Em seu coração palpitam a história
E as memórias que do tempo guardou
Traz no corpo um acorde perfeito
Do passado e presente que casou
Deu filhos ao mar e caminhos ao mundo
Lançou com arrojo um desafio ao futuro
Menina do povo
Nobre se tornou
Seu nome primeiro...
Viana da Foz do Lima
Mas quando a nobreza chegou
A “vila notável”
Viana do Castelo se chamou...


VIANA, TAL COMO A SENTI...

Foi em 2005 que fui pela primeira vez a Viana do Castelo. Uma estada curta de pouco mais de uma trintena de horas para participar, a convite da Câmara Municipal e do  Centro Cultural do Alto Minho, nas edições desse ano da Feira do Livro e da Lusofonia. Razões profissionais não me deixaram ficar mais tempo nessa bela cidade para melhor conhecê-la. Mas foi o suficiente para que me apercebesse de que estava perante uma cidade que fez História e que corajosamente desafiava o futuro.

Confesso que Viana me surprendeu pela positiva! A Viana que descobri estava longe da que registara a minha memória de menina, marcada por aquilo que me ficou das lições de história e geografia de “Portugal Continental”, nos já longínquos anos sessenta da minha escola primária. Não sei se foi o filtro do tempo ou se um ensinamento parcial ou incompleto, o certo é que de Viana do Castelo guardei apenas duas referências: ter sido a capital da província do Minho, a primeira do “Portugal do Minho a Timor” e a exuberância dos belos trajes tradicionais dessa região, que muitas vezes eram escolhidos como trajes de Carnaval nos desfiles realizados no então Parque dos Heróis de Chaves de Luanda, cidade que me viu nascer e crescer...

Fiquei alojada no “coração da cidade”, o que me deu a ocasião, nos poucos tempos livres de que dispunha, de dar um passeio pela urbe. Primeiro pelo Centro Histórico, onde me encantei com uma Viana que soube trazer modernidade a um património do passado numa harmonia serena. O edifício dos Paços do Concelho, a Casa da Mesericórdia, o Chafariz e tantos outros, saídos de uma outra época, resplandeciam revigorados pelas suas atribuições numa cidade que mostrava prosperidade em pleno século XXI.  Foi o Museu do Traje que estabeleceu uma ligação entre a Viana que eu descobria e aquela que guardava na minha recordação, pois logo imaginei quantos carnavais os trajes que ele guardava poderiam alimentar!

Museu do Traje

Um outro momento forte foi a subida ao Monte de Santa Luzia e a breve visita ao Monumento do Sagrado Coração de Jesus. De lá de cima, com a cidade a meus pés, perguntei-me se a benção para uma tal harmonia urbanística não viria desse Coração protector...

Filha de ilhéus e criada à beira mar, não poderia ter deixado de descer à margem do rio, lá onde ele se lança no oceano. O oceano que é o mesmo das ilhas das minhas raízes[1], da terra do meu berço[2] e do país que se tornou também meu[3]. O Oceano Atlântico, a estrada pela qual partiram as Caravelas e muitas delas, certamente, daquele ponto preciso onde eu me encontrava. Apazigua-me o mar, meu confidente de sempre. E foram longos os minutos que lá permaneci, falando comigo mesma ou com a menininha que fui, dizendo-lhe que, finalmente, conhecera Viana do Castelo e que ela não tinha apenas os trajes tradicionais dos carnavais da minha infância!

Mas a sabura[4] e a morabeza[5] de uma terra não são determinadas apenas pela beleza da sua paisagem natural ou dos seus monumentos. As suas gentes são o espelho através do qual se reflecte a sua alma. E em Viana senti a morabeza dos seus habitantes, nas ruas, nos comércios e, particularmente, nas pessoas que me acolheram e hospedaram, tratando-me como se da família fosse. Descobri o encanto de uma cidade que o conforto do progresso não parecia ter destruído o seu lado humano. E, quando, na manhã do meu regresso, partia para o aeroporto, a cidadã do mundo que habita em mim sentiu que deixava um chão[6] onde não se importaria de viver um dia...

30 de Abril de 2007








[1] Cabo Verde
[2] Angola
[3] Guiné-Bissau
[4] O que é bom (termo guineense)
[5] hospitalidade (termo caboverdiano)
[6] terra, local (expressão guineense)

jeudi 8 mai 2014

SEGUNDA GERAÇÃO DIASPÓRICA: ENTRE O SER E O SENTIR

Testemunho



IDENTIDADE

Busco raízes profundas
No sangue das Ilhas
A semente germinada
Em terras fartas do Maiombe
A flor desabrochada
Nas Colinas do Boé
E encontro
Os caminhos cruzados do meu eu

Caminhos de ontem
Caminhos de hoje
Horizontes infindos
Que fazem do meu eu
O ser de amanhã

Caminhos cruzados do meu eu
Trilhados por riquezas sem fronteiras
Criastes um Ser
Que é ele
O outro
E sou eu!
                                                                                 

Quando as fronteiras deixam de ter sentido e a Pátria não é mais do que o encontro de vivências cruzadas...

Foi em 1975, já com os meus dezanove anos completados, que me confrontei pela primeira vez com a questão identitária e nessa altura estava longe de imaginar o quão complexo pode ser o forjar de uma identidade quando se nasce e se vive além-fronteiras da terra mãe dos seus genitores.

De Cabo Verde trago as raízes, de Angola o berço e da Guiné-Bissau a escola da vida, países que têm como denominador comum o facto de terem pertencido ao “Império Português”, facto esse que não é alheio à forma inclusiva como se forjou a identidade que defino como sendo a minha hoje.

Nasci em Luanda, onde vivi até aos 19 anos. Pertenço, pois, a uma “segunda geração” de cabo-verdianos que foram para aquela então província portuguesa em busca de novos horizontes, levando consigo uma herança cultural que tão bem souberam transmitir aos seus descendentes.

Em casa, dominava a presença cabo-verdiana: o crioulo, os costumes, a música, a culinária, os amigos e, sobretudo, as histórias contadas pela minha avó materna do seu Cabo Verde da primeira metade do século XX. Esse Cabo Verde que se tornou também um pouco meu, preenchendo o meu imaginário com as histórias do Lobo e do Chibinho, das damas com pé de cabra ou simplesmente com as histórias do Dr. Paradinha, professor e chefe da minha avó no hospital da Praia...

Na escola impunha-se a presença portuguesa, sentida no entanto de uma forma meio ambígua: a cultura e a língua portuguesas, certo, a história de Portugal também, mas tudo isso acompanhado de um sentimento de rivalidade em relação à metrópole. Talvez por os colegas metropolitanos, desembarcados de fresco, considerarem os naturais de Angola como cidadãos de segunda. E essa rivalidade fez desenvolver um “sentir angolano” bem característico da juventude da minha geração não originária de Angola, sentir esse que se alimentava na cultura de raiz angolana de que a música se revelou como sendo um instrumento privilegiado de divulgação.

Nesta encruzilhada de referências, com um pano de fundo de uma guerra nas colónias portuguesas com vista à libertação dos respetivos povos do jugo colonial, eu sentia-me “angolana, filha de Cabo-verdianos” e essa ordem não era arbitrária... Cabo Verde era uma espécie de retaguarda, de referência inegável sem dúvida, mas era a terra dos meus pais, pois a minha era Angola...

A guerra civil que ali eclodiu em 1975, nas vésperas da Independência, levou a que partíssemos do país que me viu nascer.

Foi então a rutura causada por essa indesejada, inesperada e precipitada partida que me pôs, pela primeira vez, perante uma grande questão existencial: “O que sou realmente?. Pergunta à qual, ainda hoje, volvidos 37 anos, sou incapaz de responder com uma única palavra...

Na verdade consegui ultrapassar essa primeira rutura agarrando-me àquilo que o meu país de adoção, a Guiné-Bissau para onde fui viver, me oferecia: participar na realização dos seus sonhos de jovem nação. E nessa batalha da reconstrução nacional da pós-independência imediata, com a Unidade Guiné-Cabo Verde como pano de fundo, se forjou em mim um "sentir guineense", (que hoje defino antes como a faceta guineense da minha identidade), que veio de certa forma preencher a “orfandade” deixada em mim pela ablactação inesperada da minha terra natal. Essa identidade de substituição, ou que foi por mim vivida como tal, mesmo que de forma inconsciente, tornou-se quase exclusiva. Identificar-me, na altura, unicamente como guineense bastava-me e no entanto não tinha renegado as minhas origens nem o meu passado no país da Welvitcha Mirabilis.

Porém o processo histórico da Guiné-Bissau enveredou por percursos que a distanciaram dos sonhos e valores que tinham tecido essa minha “identidade”, fragilizando assim o sustentáculo desta. O golpe de estado de 1980, que pôs termo a toda veleidade de uma unidade entre a Guiné e Cabo Verde, e a guerra civil de 1998/1999 foram golpes fatais que fizeram ruir os alicerces dessa identidade. A nível mais pessoal cito a maneira como o Ministério dos Negócios Estrangeiros me afastou da Função Pública em 1996, sendo eu na altura conselheira para os assuntos económicos na embaixada em Bruxelas. Nenhuma explicação me foi dada de forma oficial ou até mesmo oficiosa e isso apesar das inúmeras cartas que enviei ao ministro de então, bem como aos seus sucessores, com cópias para a Primatura, Presidência da República e Ministério da Função Pública, pedindo uma explicação desse meu afastamento e um procedimento administrativo como previsto na lei da Função Pública. Por que razão terei sido afastada se nenhum processo disciplinar me foi feito por erro profissional? Porém tenho a consciência tranquila de ter exercido com afinco, brio e lealdade os cargos que ocupei na Função Pública guineense.

A conjugação destes factos, que muito me abalaram, colocou-me perante uma nova rutura. Desta vez, a rutura não era unicamente entre mim e o “meu país”, mas também algo de bem mais profundo. Era uma rutura dentro de mim mesma, entre aquilo em que eu pensava me ter tornado e o que inconscientemente eu era na realidade. Em duas palavras entrei numa “crise de identidade”!

Foi então que decidi fazer uma pausa para proceder ao balanço da minha existência: compreender de onde vinha e em que me tinha tornado ao longo da minha vida. Dessa pausa nasceu um romance cuja protagonista tem um percurso onde integração e exclusão se confrontam, num braço de ferro entre imposição e preservação de culturas, e em que o apaziguamento só pode ser alcançado pela busca da própria identidade numa dinâmica universal. Sem ser uma autobiografia, este exercício literário permitiu-me exorcizar as minhas deceções, angústias e ressentimentos ao mesmo tempo que me levou a uma redefinição da natureza da minha própria identidade.

Na verdade, pelas minhas origens cabo-verdianas, o meu nascimento, infância e juventude na Angola colonial, por conseguinte marcada também pela presença portuguesa, bem como pela minha vivência guineense desde 1975, liguei-me com laços tão profundos a esses países que seria redutor enclausurar em fronteiras geográficas uma identidade cujos alicerces afinal ultrapassam a contribuição própria de cada país. E a estas influências devo acrescentar o contributo de outros dois países onde vivi largos anos, embora de um outro modo: a França e a Bélgica.

Partindo do princípio de que a identidade cultural é determinada pelo conjunto de valores através dos quais se manifestam as relações entre indivíduos de um mesmo grupo que partilham patrimónios comuns, como a cultura, a língua, a religião, os costumes, entre outros, ela não é um processo estático, evoluindo à medida que a sociedade avança do ponto de vista cultural, social, económico e político. Do mesmo modo, a integração de um indivíduo no seio de uma nova sociedade vai de uma forma ou de outra influenciar a sua própria identidade por pô-lo em contacto com novos valores culturais, sociais e políticos.

Desta feita, o fenómeno da emigração desempenha um papel fundamental na miscigenação cultural, a nível de cada indivíduo emigrado, mas também com um efeito sobre as comunidades de origem, graças ao permanente intercâmbio entre o emigrante e estas. Se as primeiras gerações podem continuar a sentir-se ou a definir-se exclusivamente como cidadãs dos países de origem, com uma ligação quase visceral” à mãe pátria, a questão já não se põe de forma tão linear no caso das segundas gerações, estas já nascidas no país de acolhimento. Com efeito e apesar da forte presença da cultura de origem no seio familiar, o filho do emigrante vai, particularmente através da instituição escolar, conviver com outras culturas, outros hábitos que acaba também por assimilar. Duas situações podem daí advir. A mais corrente parece ser a da convivência sem conflitos dessas duas culturas, em que o indivíduo, não excluindo o facto de pertencer ao país dos seus progenitores, reivindica também a sua pertença ao país onde nasceu. A segunda e a mais rara é a da adoção exclusiva da cultura do país onde nasceu, rejeitando completamente a cultura de origem, comportamento geralmente determinado por um complexo de inferioridade da cultura de origem em relação à do país de acolhimento.

Pertencer a duas (ou mais) culturas é sem dúvida uma riqueza pessoal, mas por essa razão não deixa de constituir uma fonte de um certo desconforto”. Em primeiro lugar pelo facto de que entre o sentir” e o ser” existe um elevado grau de subjetividade. O indivíduo que se identifique com determinada comunidade que adotou, não é necessariamente visto pelos elementos da referida sociedade como sendo um dos seus. O mesmo é plausível com a própria comunidade de origem que o pode catalogar de “estrangeirado”, o que não deixa de provocar nele um certo constrangimento e sentimento de discriminação. Em ambos os casos, essas atitudes podem ter implicações na integração do indivíduo. Por outro lado, uma múltipla pertença pode criar a frustração de não se pertencer verdadeiramente a nenhuma das culturas: à de origem por não se ter uma vivência in loco da mesma e à do país de adoção, por não ter sido uma cultura de “berço”. Esta situação faz com que o indivíduo viva com uma dicotomia antagónica: a força e a fragilidade de quem abraçou vários horizontes. A força, pelo acumular de vivências cruzadas que lhe permitem saber estar com outros e a fragilidade, pelo gosto amargo que fica da sensação de finalmente não pertencer a lugar nenhum, por serem diversos os horizontes de referência.

No meu caso pessoal, ainda bem mais complicado pela mobilidade que tem caracterizado a minha vida, marcada por muitas horas di bai. A sensação que tive durante muito tempo era a de estar em permanente passagem, sensação essa que muito contribuiu para a “crise de identidade” que conheci em 1998. Na verdade, a minha “ancoragem” na Guiné-Bissau foi de tal forma exclusiva que, ao se desmoronarem os valores que me fizeram identificar com esse país, senti um enorme vazio. Porém isso não deixou de ser positivo, na medida em que me obrigou a tomar consciência de que eu tinha outras referências culturais e identitárias, determinadas pelas minhas origens e pela vivência anterior à guineense. E foi nessa base que me “reconstituí”, indo buscar às minhas origens cabo-verdianas os alicerces de uma identidade multifacetada para a qual contribuíram todas as minhas experiências de vida em cada um dos países onde vivi. Hoje, coabitam em mim a cabo-verdiana, a angolana e a guineense, num perfeito equilíbrio e complementaridade. Sou capaz de me sentir cada uma delas separadamente, isto é, sentir-me cabo-verdiana no meio cabo-verdiano, angolana com os angolanos e guineense com a comunidade guineense e no entanto ser capaz de me sentir como o vértice convergente das três. E é aqui que o que anteriormente defini como o denominador comum aos “meus” países (isto é o elo que Portugal acabou por ser entre as suas colónias) constituiu um fator de integração dessas três facetas identitárias pelas influências que teve nas culturas desses países e por conseguinte na minha identidade.

Graças a essa demanda identitária numa dinâmica transnacional, recusando-me a fechar-me dentro de fronteiras incapazes de abrangerem o “sentir” que é o meu, pude finalmente reencontrar a serenidade perdida no momento da rutura.  

Hoje a minha Pátria não se define como um espaço geográfico, mas sim como um espaço de encontro de vivências e culturas que não conhece a barreira das fronteiras e onde o “sentir” conta mais do que o “ser”...

Filomena Vieira













samedi 29 mars 2014

SAUDADES DO FUTURO

Vista interior do Liceu Salvador Correia, hoje Muto Ya Kevela (Luanda)


Dias há em que acordamos mais nostálgicos, a tal ponto que até do futuro sentimos saudades...

Do terceiro ao quinto ano do liceu, a minha sala de aulas era uma das salas das arcadas. Mais precisamente, a do meio da ala que ficava no átrio em frente à Reitoria. Nos intervalos, raramente me afastava da sala. Não era de grandes passeios, nos escassos 10 minutos que separavam as aulas. Deixava-me estar na turma conversando com uma ou outra colega ou, simplesmente, ia encostar-me a um dos pilares do corredor observando à volta: colegas que passeavam pelos corredores, grupos que se divertiam em amena cavaqueira, jogos no pátio, enfim tudo aquilo que se pode presenciar num intervalo escolar.

Porém essas lembranças esvaneceram-se na minha memória e, hoje, quando tento avivá-las, vejo tudo como num filme mudo acelerado. Apenas uma recordação se conservou nítida: uma parede amarela com manchas pretas, provocadas pela humidade. Era o canto superior da parede do Salão Nobre, que dava para o mesmo átrio que a minha sala de aulas, na extremidade da cantina.

Perguntar-me-ão: Porquê esse detalhe tão preciso? É certo que os meus olhos passaram por ele muitas vezes, mas há muitas mais coisas que devo ter visto o mesmo número de vezes. Só pode haver uma explicação: foi, sem dúvida, por um dia ter olhado para essa parede cheia de saudades do futuro... Recordo-me perfeitamente do momento em que fotografei na minha mente essa imagem, depois de me ter perguntado como, um dia, poderia simbolizar as minhas lembranças de todos os anos passados naquela casa. Foi então que me apercebi pela primeira vez desse detalhe naquela parede e, num flash, condensei nele as recordações que eu teria, no futuro, do meu liceu. Nesse preciso momento, realizei o quanto efémera era a nossa passagem pelo liceu, enquanto ele permanecia majestoso, geração após geração, formando os pilares de outras construções do Amanhã. Eu iria partir, mas aquelas paredes ficariam ali para sempre, acolhendo novas levas de jovens, como já vinha fazendo havia algumas décadas.

Para sempre? Naquele momento, estava segura que sim! Como abalar algo tão sólido como aquelas paredes robustas, assentes sobre os alicerces do saber? Nem a mancha escura na parede me deixou suspeitar o quão frágil o tempo e a História tornariam aquele edifício, ele pela usura e ela pelo destino.


Apenas uma coisa deve ter permanecido com o mesmo vigor, continuando a cristalizar recordações dos que entretanto por lá foram passando: um canto de parede amarela manchada de preto...

DESENCONTRO




 Carta aberta 

Meu amigo,

Já não sei como perdi o contacto contigo. Provavelmente por culpa minha. Não por negligência, nem por vontade, mas pelos imponderáveis da vida. Partiste primeiro, deixando-me saudades, que nem mesmo as longas cartas que, semanal e religiosamente me escrevias, podiam atenuar. Tinhas tanto para me dizer que enchias dez folhas e eu respondia-te numa página, por não conseguir contar-te o que via à minha volta. As nossas últimas cartas devem-se ter cruzado algures sobre o oceano, sem nunca terem chegado ao destino. Não voltei a ter noticias tuas e certamente não terás também entendido a ausência das minhas. E o passar dos tempos, trouxe-nos a ambos, a resignação ao silêncio mútuo.

Não nos voltámos a ver, mas recordo-te como se tivesse sido ontem que nos separámos. Tenho saudades dos tempos de liceu, da nossa amizade, da nossa cumplicidade...

Nunca cheguei a saber a verdadeira natureza dos teus sentimentos por mim, mas a imensa ternura no teu trato tornou bem fraterna a amizade que me ligava a ti. Houve quem suspeitasse de uma relação mais íntima que a simples amizade que nos unia e lembro-me o quanto isso te embaraçava, ao ponto de, durante algum tempo, deixares de vir cedo para o liceu, para esperares comigo pela abertura dos portões. Timidez ou... estaria alguém invadindo o teu jardim secreto e descobrindo o que querias ocultar? Inicialmente pensei na primeira hipótese, mas logo comecei a duvidar, quando descobri os meus dois fios de cabelo, um preto e outro branco (eh! nessa altura já os tinha!...), no teu livro de História. E como interpretar o apertar cerrado das minhas mãos pelas tuas, quando conversávamos à janela da sala de aulas ou debruçados na varanda sob as arcadas? Ou, ainda, o nome pelo qual só tu, tão ternamente me chamavas? E o teu meigo olhar de um verde cristalino? Amizade fraterna ou amorosa? Nunca soube! Talvez nunca tivesse tido a coragem de querer saber... por me sentir incapaz de corresponder aos teus sentimentos, se eles tivessem ido mais longe do que uma simples amizade...

Indubitavelmente, eu estava noutra... O meu coração batia, platonicamente, por uns olhos negros que nunca me olharam com a doçura dos teus, mas que me amarraram a um sentimento que jamais tinha tido ou voltei a ter por alguém. O sentimento cego da primeira paixão, que, por egoísmo de não ser consumada, não dá lugar a outro... Pergunto-me se alguma vez suspeitaste da sua existência. Nunca falei dele a ninguém por ser esse o meu jardim secreto...

Até que te foste, recusando a guerra que se avizinhava, enquanto eu pensava que era aquele o meu país de onde nunca sairia. Partir para onde?... Sonhos que depressa se desmoronaram... porque, finalmente também chegou a minha hora da partida, a hora di bai na língua das minhas raízes... E com ela se instalou a Ruptura... e viagens sem fim, dominadas pela sensação de estar em permanente passagem, que nem mesmo os alicerces criados na Pátria de adopção conseguiram amenizar. Desde então, a minha vida tem sido feita de chegadas e partidas, deixando pelo caminho amigos, lugares amados, trazendo comigo apenas as recordações, boas e más, que ao longo dos anos foram tornando cada vez mais pesada a minha bagagem.

Os anos correram e pergunto-me incessantemente por onde andarás. Como gostaria agora de poder escrever-te uma carta, desta vez bem mais longa que todas as que me escreveste reunidas! Como me faria bem poder contar-te o que foram estes anos de percursos cruzados que me transpuseram além fronteiras, num mundo onde a riqueza se encontra nos corações dos homens, por ser a que resulta da convivência entre diferentes culturas e sensibilidades! Nesse mundo em que o Homem, enquanto Ser Universal, convive com uma dicotomia antagónica: a força e a fragilidade de quem abraçou vários horizontes. A força, pelo acumular de vivências cruzadas que lhe permitem saber estar com os outros e a fragilidade, pelo gosto amargo que fica da sensação de não pertencer a lugar nenhum, por serem tantos os horizontes de referência... Num mundo em que cada um de nós, Filhos do Império, se reencontra na sua dimensão universal e redescobre, finalmente, a serenidade perdida no momento da ruptura...

Para te falar de tudo isso e do quanto lamento o nosso desencontro, eu queria escrever-te uma carta, como dizia o poeta...


samedi 8 mars 2014

CONFIDÊNCIAS COM O MAR






A tarde estava calma e cálida. Maria Rita acelerou o passo em direção à praia, para cumprir aquilo que se tornara num ritual desde que viera “retornada” do “Sul”, da sua Angola natal. Ao deixar para trás a vila, procurou com o olhar a “sua” rocha, um pedregulho que, entre muitos outros, desponta da areia branca e perto do qual vêm desmaiar as ondas do mar. Ora mansas ora furiosas, tal como ela face ao destino que a vida lhe reservara. Ali estava a rocha, majestosa e livre. Teve sempre a sorte de nunca a encontrar ocupada, como se àquela hora o lugar lhe estivesse reservado...
Trepou para a pedra e instalou-se.  A praia estava deserta. Ao longe dois pescadores puxavam para fora do mar um pequeno bote. Maria Rita sorriu. Faziam-na lembrar-se do velho pescador que muitas vezes encontrara na praia diante da Igreja do Cabo, na ilha de Luanda, fumando o cigarro ao contrário, isto é, com a ponta acesa dentro da boca! “Ele não se queima?”, perguntava maravilhada à mãe todas as vezes que o encontrassem. Esse episódio fazia agora parte de um passado que para ela deixara de ter futuro por ter acabado naquele dia em que, precipitadamente, embarcara na ponte aérea para fugir à ameaça da guerra.
Olhou para a linha do horizonte e estendeu o braço como se quisesse alcançá-la.  Talvez agarrando-a, apanharia esse passado que ficara para lá do oceano, repleto das brincadeiras no bairro da sua infância e dos primeiros sonhos das fantasias da adolescência. Para lá do oceano deixara um pedaço de vida que teimosamente se negava a colar-se ao que veio depois.
Fora difícil aquela partida, uma ruptura que ela recusava-se a aceitar por não ter sido escolha sua. E desde então vivia em permanente revolta. Consigo e com todos! Apenas com o mar se acalmava e quanto mais bravo ele estivesse mais serena se sentia, como se ele a domesticasse. E era por isso que ali vinha todas as tardes, para conversar com ele e ouvir os seus conselhos. O mar que se tornara no seu confidente, o único amigo que a entendia. E naquela tarde precisava muito de falar com ele, porque necessitava da sua ajuda. Talvez ele pudesse levá-la de volta, para trás da linha do horizonte...
– Ó, Mar, meu amigo, porque não me levas de volta à terra onde nasci? Deixa-me embarcar nas tuas ondas... Por favor, meu amigo! – disse-lhe em pleno desespero.
– De que queres tu fugir, Maria Rita? – perguntou-lhe o mar com uma voz rouca.
– Deste lugar!
– Mas este lugar é teu!
– Meu? Não sou de cá!
– Mas é a terra dos teus pais e, por conseguinte, a tua também...
– Minha? Como, se não a conheço?
– Como não a conheces? Os teus pais nunca te falaram dela?
– Sim..., mas eu nunca estive cá. Não conheço ninguém... Os meus amigos ficaram lá. A minha vida ficou lá! Nada aqui me faz lembrar do meu passado!
– O teu passado! Falas como se a tua memória te impedisse de te lembrares dele e que precisasses de algo que te faça recordar! Se lhe tens tanto apego, porque necessitas que te refresquem a memória? – indagou o mar irónico.
Maria Rita ficou em silêncio durante uns instantes, com o olhar perdido na onda que se aproximava da rocha e que ao bater nesta respingou molhando-lhe o rosto.
– Eh! Ó Mar! Porquê tanta fúria? Estás zangado comigo?
– Zangado eu? Porquê? Tu é que estás zangada contigo! Não sei se já te tinhas apercebido disso...
– Como posso estar zangada comigo mesma? E por que razão?
– Isso queria eu saber...
A jovem mergulhou num novo silêncio. Essa agora de estar zangada consigo mesma! O mar saía com cada uma! Como podia alguém estar zangado consigo mesmo?
– Não me respondes? – insistiu o oceano.
– Que queres que te responda, se nem sequer compreendo a tua pergunta... O que queres dizer com isso de eu estar zangada comigo mesma?
– Não querendo aceitar a tua nova vida, pões o teu presente em conflito com o teu passado. Divides a tua vida em duas vidas, totalmente distintas e sem qualquer ligação entre elas. Esqueces-te de que tu és a portadora de ambas e que elas vivem em ti. Não é por teres partido de um lugar que o teu passado se perdeu. A menos que te tenhas tornado amnésica... – Acrescentou num tom de troça antes de continuar:
– Sabes, Maria Rita, contrariamente ao que possas pensar, és uma pessoa com muita sorte!
– Com muita sorte? Que disparate! Hoje só dizes tolices! Como posso eu ter muita sorte se me sinto a mais infeliz das criaturas? – perguntou com um fiozinho de voz que traía a emoção que lhe vinha da alma.
– Muita sorte tens tu, sim! Já imaginaste a riqueza que transportas em ti?
– Riqueza? Viemos com uma mão à frente e outra atrás e ainda tens a lata de me falar em riqueza?!
– Riqueza sim, minha filha, e daquela que nunca se perde por ser interior. Vens de outros horizontes, de outras culturas e de outras vivências que de certa forma assimilaste. Isso jamais sairá de ti. Tens também a vantagem de pertencer geneticamente a um povo que mesmo em terras distantes preserva ao longo das gerações os valores fundamentais da sua cultura...
– Não é por ter comido catchupa e ouvido mornas e coladeras que assimilei a cultura caboverdiana... – interrompeu-o com uma certa irritação e na defensiva.
– Aí é que te enganas, Maria Rita, essa catchupa e essas mornas e coladeras eram apenas a parte visível do iceberg! A educação que recebeste dos teus pais não era angolana! Era caboverdiana! A mesma que eles tinham recebido antes de partirem daqui. Não quero, porém, dizer que tenhas que te sentir unicamente caboverdiana, uma vez que viveste também uma outra realidade e que te tenhas identificado com Angola. E a propósito, se entendes que a catchupa não pôde fazer de ti uma caboverdiana, achas que o funge fez de ti uma angolana? – E o mar riu-se às gargalhadas.
Maria Rita amuou e preferiu não responder. Voltou a fixar o horizonte de testa franzida enquanto refletia no que o mar acabara de lhe dizer. Ele tinha uma certa lógica... que ela não conseguia seguir. Esfregou o nariz como sempre fazia quando tinha uma dúvida e não sabia o que decidir. “O que queria ele dizer com isso tudo?” – murmurou entre dentes.
– O que quero com isso dizer, minha amiga? – reagiu o mar atento. – Simplesmente que tu não precisas de negar a tua caboverdianidade para guardares a tua angolanidade! E é essa a tua riqueza que jamais alguém poderá roubar-te. A tua vida de hoje é um prolongamento da anterior. Não é uma outra vida, mas sim a mesma que continua num novo país que deves aprender também a amar.
– E a minha pátria? Qual dos países será a minha pátria? – perguntou arrebatadamente.
– Isso é importante para ti?
– É sim e muito! Toda a gente tem o direito de ter uma pátria, não? – Uma certa irritação denotava o estado da sua alma.
– Então, mais feliz ainda serás quando descobrires que tens uma super pátria!
– Uma super pátria? O que é isso? Acho que estás a ficar louco de tanto beberes todo esse petróleo que vazam em ti...
Pela primeira vez Maria Rita esboçou um sorriso desde o início da conversa dessa tarde. Fora uma ocasião para provocar o mar sempre tão seguro de si. Mas o oceano fingiu não perceber a piada para não desviar a conversa para um outro debate e prosseguiu:
– É como te digo! Uma super Pátria, uma terra de sonho, situada algures num mundo imaginário e desprovido de uma dimensão terrestre. As suas fronteiras abraçam, ao mesmo tempo, a época da tua infância e adolescência e a tua vivência atual, tudo numa perfeita harmonia, sem discriminações, sem exclusões, por ser o país criado para ti. Só para ti.
– Estás completamente louco! Uma pátria imaginária? Onde já se viu isso?
– Ela será imaginária enquanto não a aceitares... pois ela existe em ti. É uma verdade que não deves ignorar se realmente quiseres ter serenidade na tua vida. O nosso passado só nos serve quando nos pode ser útil para o presente e o futuro. Se o fecharmos num compartimento, mesmo que seja forrado de ouro e diamantes, não nos serve para nada. Deixa-o entrar no teu presente para que construas um futuro sereno e harmonioso...
Maria Rita já não escutava o mar que continuava a falar-lhe. A voz dele parecia cada vez mais distante. Ela concentrava toda a atenção no que o mar lhe dissera, nessa pátria imaginária que vivia nela. E se o mar tivesse razão? E se fosse ela que complicava tudo? Sim, ele tinha razão! Nessa pátria imaginária ela encontraria a sua Angola natal e o Cabo Verde dos pais, que de repente lhe pareceu menos estranho e mais próximo, porque deixava o seu coração aproximar-se dele, de mansinho, mas seguramente. Repentinamente sentiu-se invadir por uma alegria jamais sentida. O mar tinha razão! Essa pátria existia e ela acabava de descobri-la. Tinha que dizer isso ao mar e agradecer-lhe a forma como lhe devolveu o passado que ficara para lá do horizonte... Pôs-se de pé sobre a rocha e, colocando as duas mãos à volta da boca em guisa de um altofalante, gritou:
– Obrigada, ó mar, por me fazeres compreender o que eu negava ver e aceitar!
O mar não respondeu. Uma onda que viera bater na rocha recuava tranquilamente para o largo. Maria Rita insistiu:
– Estás a ouvir-me, ó mar? Escuta meu amigo!
O oceano continuou mudo. Aos poucos ela apercebeu-se de um barulho vindo das rochas. Voltou-se para trás e viu a mãe que tentava equilibrar-se sobre as pedras à medida que avançava para ela.
– O que fazes aqui, Maria Rita? Procurei-te por toda a parte! Com quem estavas a falar? Não vejo ninguém por aqui... Estás bem, minha filha?
– Oh, mamã, nunca estive tão bem na minha vida! Dá cá a tua mão e vamos-nos daqui. Apetece-me ir ouvir uma morna... e queria que a escutasses comigo!
– Uma morna..., mas que morna, minha filha?
– Mar de Canal...
Maria Rita pegou a mãe pela mão e desceram para a areia. Virou-se uma última vez para o mar e piscou-lhe um olho num gesto cúmplice.




samedi 1 février 2014

IDENTIDADE



Busco raízes profundas
No sangue das Ilhas
A semente germinada
Em terras fartas do Maiombe
A flor desabrochada
Nas Colinas do Boé
E encontro
Os caminhos cruzados do meu Eu

Caminhos de ontem
Caminhos de hoje
Horizontes infindos
Que fazem do meu Eu
O Ser de Amanhã

Caminhos cruzados do meu Eu
Trilhados por riquezas sem fronteiras
Criastes um Ser
Que é ele,
O outro
E sou eu !

Março de 1993